Insegurança – Amanda Arruda
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Insegurança

Opiniões que ninguém pediu

Abrace os seus sonhos, abrace o medo, abrace a queda

foto por: Helene Rydén

Eu sempre fui medrosa. Desde que eu me entendo por gente, não lembro de algum momento em que eu tenha simplesmente pulado a parte de pesar prós e contras e decidido simplesmente me jogar for the sake of it. Prova disso é consegui sair da infância e da adolescência sem um osso quebrado, nenhuma cárie – e nenhuma estripulia homérica para contar pros netos. Isso quer dizer que eu nunca faça ou tenha feito uma loucura? Não. Mas até as loucuras são bem avaliadas. Eu sempre penso nas consequências. O que vai acontecer se eu falhar? O que vai acontecer se tudo der errado? E, baseada nisso, eu tomo minhas decisões. Sempre foi assim e é como eu lido com a vida.

O lado ruim disso tudo é que, sendo medrosa, eu paraliso quando o medo das consequências de algo dar muito errado é muito grande. Não consigo seguir em frente. Eu fico paradinha, no meu lugar, e ignoro aquilo que podia ser algo que mudaria a minha vida. É fato que quase nenhuma das escolhas importantes da vida são indolores e o medo da dor é algo que dá uma tela azul grande e monumental em mim. Não a dor física em si (embora eu não seja lá muito fã dessa também), mas a dor psicológica. A dor de errar, de falhar, de não ser capaz de fazer algo. De ser menor, ser insuficiente, ser desimportante. A dor, em suma, de ser humano.

Acho que a esse ponto você já deve ter avistado o louco dessa linha de pensamento. Não existe humanidade sem erros. Não existe crescimento sem riscos. Não existe vida quando estamos sempre na nossa zona de conforto, nunca desafiados, nunca desenvolvendo novas maneiras de ver o mundo. Isso é óbvio e está aí pra todo mundo ver. Porém acredito também que você, provavelmente um millenial como eu (pelo menos, de acordo com as estatísticas do meu analytics), também se identifica com essa loucura chamada medo de falhar. É uma coisa muito louca como o nosso cérebro funciona, o que a gente acha que é lógico e correto (e que não faz o menor sentido uma vez que a gente põe o pingo nos is). É surreal o que o medo nos faz acreditar.

Você entende o que é querer abraçar o mundo sem abandonar o sofá e o Netflix? Você sabe o que é querer voar, mas só se não houver absolutamente nenhuma chance de cair? Eu sinto como se tivesse uma tempestade de sonhos e desejos dentro de mim, querendo nada menos do que a liberdade de ser. E eu, querendo me poupar os arranhões ao ego, os estresses da vida, trato de guardá-la bem guardadinha dentro de mim, costurada em um ponto bem pequeno, pra não ter erro (vamos evitá-los, né?). Só que, de vez em quando, não dá. De vez em quando os pontos abrem, ela corre louca rumo à luz do dia e haja “bom senso” para colocá-la no lugar novamente. No meio dos trovões, algumas nuvens cinzentas fazem muito mais sentido do que alguns céus azuis da minha realidade. Mas eu sempre ignoro isso, porque não vale a pena. No meio dos prós e contras, o “e se” me paralisa. As possibilidades de quebrar a cara, cair feio, colocar meu bloco na rua e ninguém aparecer fazem com que eu junte cada raiozinho dessa tempestade e guarde bem guardadinho dentro de mim. Faz com que o que mais faz sentido dentro de mim seja descartado, me deixando apenas com pedaços de algo que deveria ser um inteiro.

Dias desses eu topei com a frase “embrace the fall” no twitter, num dia qualquer em que meu humor estava uma bosta e que eu sentia, como sempre, que tinha algo dentro de mim querendo sair e que esse  algo deveria ficar quietinho pois ele não estava ajudando em nada, estava? E algo clicou dentro de mim. Algo fez sentido.

Vocês vejam mesmo: não há maneira de ter certeza sobre nada do que vai acontecer. A gente não controla o resultado das situações – muitas vezes, inclusive, a gente não controla nem as ações que vêm antes do resultado. Eu tô escrevendo uma coisa aqui com uma intenção x, mas sempre vai ter quem entenda y e, realmente, não há muito o que se possa fazer sobre isso. Na vida, há diversas variáveis, várias influências e inúmeros cenários possíveis que não apenas não vale a pena elencar  como também seria impossível fazê-lo. É o que a vida é. Enquanto eu sou sempre a favor de elencar prós e contras e tomar decisões racionalmente, ultimamente eu tenho levado muitos tapas na cara da minha intuição. Porque a gente é mais do que cálculos e o racional. Somos nossos sonhos, nossa sabedoria interior, nossos desejos. O equilíbrio está em saber quando escutar a cabeça e quando escutar o coração. Porque alguns sonhos são simplesmente muito assustadores para responderem às nossas equações de certo e errado. São queridos, partes nossas em toda a sua indomabilidade, e nós não queremos perdê-los. Nós sentimos que eles são parte de nós e que, se há a menor chance de não conseguirmos fazê-los virar realidade, é melhor nem tentar. É nessas horas de insegurança que, algumas vezes, a gente simplesmente vai ter que dar a tapa à cara e pronto. A gente vai ter que confiar na nossa intuição, vencer a barreira do medo e deixar chover na nossa vida, no nosso sonho.

Porque, sendo apenas lógica, vejam qual é a situação: se a gente não tenta, a gente não ganha. Porém, se a gente tenta, a gente tem uma chance de ganhar o que quer que a gente queira, certo? Logo, o que devia ser o filme de terror da gente não seria colocar um sonho, uma ideia, um desejo na rua, mas não colocá-lo. Guardá-lo entre nossos trecos, como escultura velha de porcelana numa estante empoeirada. Sonhos não foram feitos pra serem guardados, eles são selvagens demais pra isso. É como ter um tigre como animal de estimação. Ele não vai brincar contigo e te animar no fim do dia – ele vai te devorar. Você deve deixá-lo em liberdade, deve libertá-lo para o mundo, onde ele tem muito mais chance de se adaptar bem do que deitado aos seus pés.

A única saída é seguir em frente, abraçando a queda, quer ela venha ou não. A queda não é apenas uma possibilidade – é parte da vida. Um vez que a gente entende, de uma vez por todas, que somos humanos e que não se espera que sejamos perfeitos e façamos tudo impecavelmente, tudo se torna mais fácil. É certo que algumas coisas vão dar certo e outras vão dar errado, porque there is no such a thing as perfeição. A nossa única chance de sermos completos, de sermos o máximo que podemos ser, de agirmos com justiça com nós mesmos é, no que diz respeito aos nossos sonhos, termos coragem e soltá-los para voar e ganhar o mundo. A queda é possível? É sim. Tudo pode dar errado? Com certeza. Mas guardado dentro de nós ele não vai a canto nenhum, também. Portanto, o risco é não libertá-lo – deixá-lo livre é nossa única opção.

E sempre bom lembrar: a gente cai, levanta a poeira e escolhe outro sonho (ou às vezes, até o mesmo, de uma outra maneira) para colorir o nosso mundo. A força e a beleza da gente não está na habilidade de evitar os tombos, mas na desenvoltura de, ao cair, aprender com nossos erros e levantar para tentar de novo. Não precisamos temer as possibilidades – precisamos libertá-las.