Mas a gente sempre acha que tá gorda, né? – Amanda Arruda
Opiniões que ninguém pediu

Mas a gente sempre acha que tá gorda, né?

Foto por: betulvargun

Foto por: betulvargun

Ou: como precisamos ser mais gentis com nós mesmos.

Outro dia uma amiga e eu estávamos comentando como a gente sempre se sentia gorda, não importa o quão de boa nosso corpo estivesse. De início, a gente não quer acreditar que o nosso olho é tão do mal com nós mesmas, mas isso é algo facilmente provável a partir do momento de você começa a olhar fotos antigas. “NOSSA, eu era tão magra!”, é o pensamento que sempre me vem à cabeça, instintivamente. E não precisa ser foto de 10 anos atrás, não. 3 ou 5 anos já vão fazer diferença. Se brincar, até 2. Quando a gente se afasta um pouco do centro do furacão é que a gente vê como a nossa realidade é distorcida. Por nós mesmas.

Não vou entrar aqui no mérito de a-sociedade-nos-impõe-um-padrão-de-beleza, porque isso já tá mais do que provado e não é bem o meu assunto de hoje. O que eu queria expor, nesse ponto, é o quanto a gente não é legal conosco. O quanto somos sempre mais críticas com a gente, com o nosso braço de biscoiteira, com nossa performance no trabalho, com nossas qualidades como ser humano, no geral. Eu não sei vocês, mas eu costumava dizer que se há um céu, eu não estaria nele, porque como estar? Eu não sou boa o suficiente. Eu, muitas vezes, deixo o elevador fechar e não seguro para a pessoa que estava na catraca porque eu queria ir sozinha, sem conversar com ninguém. Eu pego o melhor pedaço de bolo, se tiver a oportunidade, nas festinhas da vida. Eu sou egoísta e todos sabemos que o céu não é lugar para egoístas.

O nosso arsenal de críticas para nós mesmos não tem fim nem limites – se não intervirmos diretamente. Nós estamos sempre atrás, correndo para conseguir acompanhar. Nunca somos dignos de nada e estamos sempre sob o eterno guarda-chuva do impostor – eu tô aqui, mas tenho a impressão que as pessoas NÃO SABEM BEM quem eu realmente sou e é por isso que eu tô aqui. Isso se soma a interminável lista de coisas que alguém inventou que precisamos ser antes dos 30 – empreendedora, com uma boa saúde financeira, mãe, responsável, ter viajado o mundo (de preferência, morar fora), casada, com casa própria e bem mobiliada e limpa etc – e que não ajuda de maneira NENHUMA a melhorar a nossa estima por nós próprios.

A pressão, ela vem de fora, sim. Não há dúvidas disso e, pra mim, nem vale aprofundar essa discussão aqui, agora. Ela vem e ela virá por um bom tempo ainda.

O que não pode é a pressão vir de dentro.

Pensa bem comigo: você seria assim, super crítica, com alguém que você ama? De verdade? Pensa na pessoa que você mais ama nessa vida e pensa que você poderia dizer algo para fazê-la se sentir mal, quando esse algo nem é importante ou muito menos faz sentido. Você diria? Eu, particularmente, sou bem mais legal com as outras pessoas do que comigo mesma. Aceito os erros e relevo alguns pontos porque, afinal de contas, somos assim. Todo mundo tem direito a ser você mesmo, no seu espacinho no mundo. Menos nós mesmos, aparentemente.

Não faz nenhum sentido ser tão chato consigo mesmo. Não precisamos ser perfeitos. Não precisamos ser os melhores em tudo. Só precisamos ser felizes. Vamos praticar sermos mais gentis com a gente. Não tô aqui dizendo “isso, aceita tuas burradas e não melhora em nada, tá de boas”, mas dizendo que tudo bem se você não lê tanto porque prefere assistir séries. Ou se você não tem o corpo da Kim Kardashian nem a conta bancária dela. Ou se, de vez em quando, você é antipático e quer ficar sozinho no elevador do prédio, pra variar. Ninguém morre por isso e TODO MUNDO tem falhas. Você não é a primeira nem a única pessoa a vir com problemas de fabricação – se eu posso ser engraçadinha o suficiente para usar o termo – e acredito que quem quer que esteja metido nessa bagunça (eu acredito em Deus, mas você pode acreditar em outra coisa ou em nada e TUDO BEM) não pediu o recall, então né? Acredito que meu buchinho saliente e eu não sejamos um problema tão grande assim, no fim das contas.

Vamos sim, nos melhorar a cada dia e tentar externalizar o melhor que temos para o mundo. Mas sabendo que já somos muito bons. Já somos, agora, a nossa melhor versão.

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19 Comments

  • Reply Laisa Rebelo 16 de março de 2016 at 17:01

    Total, Amanda! <3

    • Reply Amanda 16 de março de 2016 at 17:08

      <3

  • Reply Thaís Nascimento 16 de março de 2016 at 17:11

    Affff arrebatou meu coração com esse post amora <3

    • Reply Amanda 16 de março de 2016 at 17:16

      Obrigada, sua linda <3

  • Reply Gleice Sousa 16 de março de 2016 at 22:15

    Eu sou justamente o contrário: Eu sou dura com os outros e passo a mão na minha própria cabeça. Sou sincera e direta com os outros porque quero o melhor pra eles, quero que eles mudem e sejam pessoas melhores. Já comigo é diferente, eu me mergulho no pessimismo, me conformando no fato de que nada mais vai mudar, que eu não irei mudar.

    Com relação ao peso, não importa se a pessoa é gorda ou magra, se as pessoas fala bem ou mal do seu corpo… O que importa é o que você acha dele, e que esteja saudável, claro, pois existem sim gordinhos saudáveis.

    • Reply Amanda 31 de março de 2016 at 10:58

      Pois, é Gleice, acho que não importa mesmo, a gente tem mais que nos amar do jeito que somos. Dei o exemplo de se achar gorda porque é bem comum e mostra o quanto nossa visão é pouquíssimo confiável algumas vezes, por estar tão conectada com o que a gente acha que precisa ser.

  • Reply Maki 17 de março de 2016 at 11:31

    Sabe, você tocou num ponto essencial: dignidade. Até falei sobre isso no blog essa semana, mas a gente tem a mania de achar que não é digno de nada, que não merece nada, principalmente o amor. A gente fica encontrando formas de se esquivar disso, de falar mal da gente mesmo e isso vai fortalecendo uma cultura de autoengano e autosabotagem que é difícil desfazer. Não vou falar que é fácil, porque eu mesma estou passando por esse processo e sei das suas dificuldades, mas quando a gente entende que é perfeita – porque a VIDA que existe na gente é perfeita – tudo fica mais fácil, até se amar (e, por consequência, amar os outros) ♥

    • Reply Amanda 31 de março de 2016 at 10:57

      É por aí mesmo, Maki. Quando a gente começa a se amar e ver que a gente é perfeita com nossos defeitos e qualidades, tudo fica mais claro e simples.

  • Reply Cacau 18 de março de 2016 at 09:04

    Mandy, sabe que uma vez eu li um livro (feminista) que explicava que a maioria das mulheres não via problema com o seus rostos, elas geralmente se achavam bonitas até, mas quando se tratava do corpo elas sofriam de uma distorção muito louca, que fazia com que todas se enxergassem mais gordas do que eram.
    Acho que é uma questão que vem muito de fora sim, é uma condição que nós mulheres sempre lidamos, desde pequenas. Vale tudo, temos que ter tudo, mas principalmente precisamos ser magras. É uma falácia, e é ridículo. Eu me sinto muito mais eu e mais bonita hoje, com três kilos acima do ideal, do que era antes. A gente aprende.

    E sobre a pressão interna x pressão que sentimos com as outras pessoas, eu lembro de um quote que li uma vez (sou a louca dos quotes) e que é muito pertinente ao teu texto: “If you had a friend who spoke to you in the same way you sometimes speak to yourself, how long would you allow that person to be your friend?”. É algo a se pensar.

    Beijão!

    • Reply Amanda 31 de março de 2016 at 10:55

      Essa quote, muito verdade, Cacau. A gente definitivamente precisa aprender a se desvencilhar um pouco da pressão dos outros, para não acabar nos pressionando do mesmo jeito também. É um erro comum, mas que quase ninguém nota. ):

  • Reply Marilda Blasse 18 de março de 2016 at 11:48

    Oi Amanda, é assim, na blogosfera, a gente anda aqui e acola e de repente acha novos cantinhos dos quais viramos fãs incondicionais no primeiro momento, ou na primeira leitura…. adorei, virei fã e estarei sempre aqui vendo as novidades….bjucas!

    • Reply Amanda 31 de março de 2016 at 10:54

      Que fofa! Obrigada, Marilda, volte sempre! <3

  • Reply Nicas 27 de março de 2016 at 23:30

    Eu sempre me olhei no espelho e me vi imensa. Quando eu pesava 53kg, me olhava e via a mesma pessoa que eu só fui ser dez anos depois com 71kg. Não me vi magra e não me vi engordar, nunca vi meu corpo, independente do estado dele. Pra carreira e estudo foi a mesma coisa. Eu nunca enxergava a coisa real, eu via só as coisas em que tinha falhado, mas não conseguia encontrar o que estava fazendo errado ou como podia melhorar. Tudo isso me gerou problemas de saúde e crises de ansiedade pesadíssimas, e foi só lendo textos assim que eu aprendi que tá todo mundo junto, todo mundo se sente assim e que todo mundo está disposto a conversar e se ajudar. Acho que essa é a coisa mais incrível dos blogs, a gente junta essa comunidade e vai se mudando e se melhorando aos pouquinhos. E é lindo!

    • Reply Amanda 31 de março de 2016 at 10:47

      Também amo isso no mundo blogueiro, Nicas! O fato da gente se ver um pouquinho no outro. É como uma grande rede de apoio, onde você sabe que QUALQUER QUE SEJA SEU PROBLEMA, você não será a diferentona. <3

    • Reply Dani 24 de abril de 2016 at 17:37

      Nicas e Amanda, vocês me indicam alguns blogs pra leitura? Estou num processo pesado de cobrança em cima de mim. Não estou feliz onde eu moro, onde eu trabalho, com o meu corpo, etc etc. E sei que no fundo, nada é tão ruim, mas a montanha russa que me encontro diariamente está desgastante.
      Estou com a minha auto confiança completamente abalada, como se tudo que eu faço e falo não está certo. Sou daquelas que não precisa cobrança de ninguém: eu mesma me cobro e com isso, sou extremamente dura comigo.

      Sei lá. Acho que estou precisando de terapia, de adubar minha cabeça com textos e coisas boas, porque tá foda.

      ps: Amanda, to amando seu blog

      • Reply Amanda 25 de abril de 2016 at 09:58

        Dani, indico de coração todos os do meu blogroll, mas sinceramente, nem sempre as pessoas falam sobre isso. É nessas esquinas da vida que a gente dá de cara com alguém que pensa parecido com a gente mesmo e termina se descobrindo no outro. Talvez você precise, como todos nós, aprender a se cobrar menos e viver mais o que a vida nos oferece. É um aprendizado contínuo, nunca acaba, nunca tá 100%, mas o importante é a caminhada, né?

        Enfim, minha resposta nem fez sentido, mas espero que você ache essas coisas boas para guardar dentro de você. (:

  • Reply Dani 25 de abril de 2016 at 18:35

    Obrigada pelas palavras. Certamente, coloquei mais coisas boas dentro de mim para guardar. =)

  • Reply Nay 6 de maio de 2016 at 11:19

    Oi Amanda, te achei no blogroll da Passarinha e to aqui lendo tudo, tudinho mesmo.

    Mas parei nesse post pra comentar porque me identifiquei tanto com ele que nem sei se vou conseguir descrever. Essa patrulha interna da fraude grita nos meus ouvidos todos os dias…. porque a gente se desqualifica tanto? Eu sou capaz de ouvir elogios das pessoas e relativizar, afinal, eu nem sou tão boa quanto dizem, eles só estão falando isso porque gostam de mim… meu jeitinho.

    Fiz 30 anos esse ano e tive que chamar o SAMU porque a bad bateu feio. Começou um mar de cobranças bem na vibe do que vc colocou no texto, aquela sensação de que o checklist do sucesso tava longe de ser preenchido. Tenho passado justamente por esse momento de mudanças e auto-aceitação e faz uma semana que simplesmente comecei um curso novo, completamente diferente da área que me formei e que trabalho. e sabe quando vc se sente em casa com algo? to me sentindo assim….

    Enfim… Desculpe o textão (talvez meio sem pé nem cabeça), mas estou simplesmente recomeçando e essa visão do seu texto bateu forte… porque simplesmente não posso me tratar como trato as pessoas?

    • Reply Amanda 10 de maio de 2016 at 13:48

      É um grande questionamento mesmo, Nay. Se déssemos o desconto pra gente que damos às pessoas, acho que nossa vida seria muito mais simples. ):
      E seja bem-vinda ao blog!

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